A descoberta de um novo caminho criativo

Relato de Experiência


"A arte que me curou,
cura outras vidas." 

Por Fernanda Navegando*

Meu nome é Fernanda Figueiredo, ou melhor, Fernanda Navegando. Nome que inventei quando descobri que minha vida possuía um teor cigano, andarilho, curioso e que devido a todas essas vontades eu tinha que trabalhar muito, para assim conquistar a jornada escolhida. ‘Viver não é preciso, navegar é preciso”. Fernando Pessoa.

Na verdade sempre soube, mas com o tempo, e a conquista de uma melhor consciência, vamos nos identificando com  algumas coisas do mundo, coisas essas que vão se adjetivando em nomes e desejos, e mais que isso, em sentimentos . Sentimentos  que se transformam em propósitos, todos esses conscientes e inconscientes nos guiando nas estradas percorridas.

Me formei em cinema e video na UNA, Belo Horizonte –MG , e quando me perguntavam o porquê dessa escolha, eu dizia que queria ajudar as pessoas. Essa resposta claro, assustava ainda mais, uma sociedade provinciana, que afinal se assustava com a escolha de um curso não convencional, mas esperava ouvir que minha finalidade ao escolhê-lo seria a fama e o sucesso.
No decorrer da faculdade e das experiências adquiridas, rapidamente entendi que não queria ficar horas em um set de cinema, acordando as 4 da manhã e dormindo só no outro dia. Vi que meu potencial criativo e a saúde do meu corpo necessitavam de uma arte autônoma, ligada aos meus sonhos, delírios e urgências. Uma arte que fosse feita em um tempo mais honesto para mim.

Após me formar em cinema, voltei para a dança, atividade que sempre esteve presente em minha vida. Na interação da dança com o cinema, o gosto pelos movimentos, descobri o videodança. Criei muito apreço por aquilo, eram dias e dias estudando sobre essa linguagem.  A partir de algum tempo, comecei a dar algumas oficinas de videodança, uma dessas  foi no Serro –MG, uma região bem pobre do estado. Os alunos eram da APAE ( Associação dos pais e amigos do excepcionais ).  A outra oficina muito marcante foi  em um festival de inverno da cidade de Milho Verde-MG, cujo público era misto , formado por crianças, dançarinos, homens e mulheres curiosos. Essas duas experiências foram muito motivadoras, pois trabalhar com os movimentos, a criação e o conhecimento para pessoas que pouco sabiam sobre o mundo das artes, e até mesmo apresentavam deficiências como no caso dos alunos da APAE , foi extremamente transformador e humanitário. A vida foi abrindo outros recortes sobre as artes, e o coração foi penetrando em outros humores.

Continuei com a direção de arte em trabalho fotográficos para  bandas e artistas, e ali também o contato com as pessoas foi se revelando terapêutico, já que agora eles habitavam ludicamente os mundos que criei e os personagens que desenhei em minha concepção de cena e argumento.

Passei  um ano nesse processo inicial, até que  fui para Barcelona estudar direção de arte.  Estando em Barcelona percebi que a direção de arte é muito interessante, me fez pensar processualmente na criação e me motivou a estabelecer maiores vínculos com o projeto, porém, mais uma vez me deparei com uma criatividade muito estruturada, moldada e voltada sempre para a razão. Entrei em crise, sentia que precisava voltar para o corpo, para a alma, para o ser.

Voltando para o Brasil me dediquei mais dois anos na direção artística de projetos com bandas e artistas, passei por experiências muito importantes que fizeram crescer meu portifólio  e minhas condições profissionais para ingressar em um mestrado, pela vontade que sempre tive de ser professora.

Mais uma vez regida pela face cigana, fiquei dois anos em Portugal na faculdade de Belas artes.  Quando cheguei, meu projeto convicto era o estudo da videodança, mas com o tempo tudo mudou. Fui vendo que gostava mesmo era de performar para as fotografias, criar narrativas, contextos e nichos  onde os personagens que criava pudessem atuar em um mundo fotográfico, e cheio de mensagens para além da forma fixa. Experimentei o que pude, entre esses experimentos foto colagens, desenhos à mão  sobre fotos e livro de artista.
Todos esses feitos, foram confeccionados com muito esmero, paciência e atenção. Fui me tornando consciente do efeito terapêutico e do prazer que nos move quando estamos ocupados, cumprindo com carinho uma obra artística.

Para estabelecer o tema do meu trabalho final, minha tese,  inicialmente queria fazer um livro de artista, com muitas colagens, poesias e fragmentos de pensamentos.  Mas felizmente fui atravessada com perguntas da minha orientadora, sobre o que de fato me movia, o que amava e qual seria minha base argumentativa/intelectual  para construir minha obra final.  Não exitei, e disse que minha paixão era o Tarot.  Meus mestres da atualidade eram Alejandro Jodorowsky e Carl Gustav Jung . “ La via del Tarot”  é o livro do Jodorowsky que me acompanha por 5 anos, mas só agora nesse último ano, ele ocupou mais profundamente e simbolicamente meu campo do saber. Outro livro juntamente ao mestre que se atribui os conhecimentos nele dissertados, é “Jung e o Tarot”, escrito por Salie Nicholls, aluna do instituto Junguiano da Suíça. Sim, eu já sabia qual caminho a ser trilhado, mas me faltava talvez um pouco de coragem, já que estava em uma faculdade de Belas Artes, onde o intuito não era o misticismo, ou o pensar filosófico/psicológico, mas as construção de obras para exposição.

Foi uma tarefa difícil bancar essa escolha apaixonada, e o temor diante aos temas que me movem, como a fé , o simbolismo, o caminho espiritual e tudo que diz respeito aos oráculos e mistérios intrínsecos da vida. Mas quanto mais pesquisava, mais desejava continuar com esse tema, que hoje por certo faz parte do meu presente/futuro, participando ativamente da construção do meu ser cívico e espiritual.

Ao pesquisar Carl  Gustav  Jung  descobri  Nise da Silveira e seus diálogos sobre tratamentos com arte terapia, e todo processo do inconsciente coletivo. Ao tomar conhecimento desses seres e suas atuações no mundo, assim como o contato com alguns arte terapeutas e interessados, foi surgindo o desejo por usar da arte que me cura todos os dias e a cada feito, para curar outras pessoas que precisam se ocupar com alegria, possibilidades e transversalidade.

Alejandro Jodorowsky é um arte terapeuta  ao meu ver.  É movido pelo mundo das artes e pelo mundo místico, um sempre dentro do outro participando de forma sinergética e construtiva em todos seus trabalhos. É um artista em tudo que faz.

No meu trabalho  de direção de arte crio personagens, cenários  e toda uma atmosfera que abraça a ação dessas personas artísticas, mas  que também fazem parte de algumas facetas que estão latentes e manifestas em mim.

 O projeto do meu mestrado “Arcanos Perfomáticos” trata da migração dos símbolos do Tarot de Marselha para fotografias, intituladas foto performance, tendo como base criativa a ressignificação dos arcanos, ao criar uma nova simbologia e estética a partir dos pares escolhidos para um dialógo semiótico. O objetivo foi tratar da arte da foto performance e da performatividade no manuseio dos símbolos do Tarot. A realização das imagens, tanto das cartas quanto das fotos, foi influenciada pela arte Kitsch, tal como foi descrita por Umberto Eco em “Apocalípticos e Integrados” (2004).

A ressignificação das cartas por meio do desenho, foi influenciada teoricamente pelo Tarólogo e artista Alejandro Jodorowsky, assim como pelo psicanalista Carl Gustav Jung. O propósito foi inserir a simbologia das cartas na linguagem de foto performances, nas quais inseri meu corpo enquanto pose. Para isso foi necessário tratar dos conceitos de foto performance, performatividade e pose.

 Ao terminar essa pesquisa e obra me deparei com a sensação de que a cura pela arte, a reintegração social pela criatividade poderia  ser cumprida  em oficinas onde as propostas são criar personagens, pequenos roteiros, adjetivos para cara personagem,  atmosferas, cenários, assim como uma descrição dos aspectos psicológicos, sociais e afetivos de cada um . Dando assim a oportunidade das pessoas poderem ser o que quiserem, quebrando com barreiras do ego e das imagens pré concebidas de si mesmo.

Esse feito pode ser desenvolvido  e estimulado com os arcanos do Tarot. Vale ressaltar que o jogo do Tarot em si já é terapêutico para quem pede sua consulta, pois os arquétipos, modelos universais, iluminam o olhar do tarólogo para que essa luz se expanda para o consultante e os mistérios quase impermeáveis do  inconsciente sejam clarificados com o simbolismo magnetizado pelo jogo.

Nesse mundo simbólico imenso e repleto de possibilidades, me vejo sendo uma facilitadora para as pessoas que buscam  outras formas  de se estarem no mundo e  querem  retornar para si mesmas, com a consciência do poder que têm enquanto seres viventes inteligentes  e cheio de possibilidades.  Essa que são catalisadas pela construção de  novas realidades.

A arte terapia por agora é apenas um desejo, mas espero que seja um dia um caminho promissor e cheio de realizações pessoais e coletivas, para o bem geral de todos. A saúde é uma válvula motriz para se poder usar a criatividade, própria do ser, em todas aos âmbitos da vida. Que possamos então nos curar, e que curemos e sejamos curados pela oportunidade de conhecer e fazer outras plataformas perspectivas para a vida, que sempre será singular a cada alma.


*Fernanda é fotógrafa e cineasta, pesquisadora, arte terapeuta e uma das artistas a integrar o grupo Corpo Língua de pesquisa e experimentação cênica, que integra o projeto Experimentação Itinerante, do Instituto Imersão Latina

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