Sons estabelecem diálogo entre arte, ciência e meio ambiente indicando novos rumos da educação musical


Apropriar-se da linguagem dos pássaros e dos animais da floresta amazônica, incorporando-a à cultura musical sem transformá-la em imitação estereotipada e barata do real, é apenas uma das conquistas da Música Transmórfica, gênero criado e desenvolvido pelos músicos Albery e Thiago Albuquerque, pai e filho, fruto de mais de três décadas de uma pesquisa científico-musical que abre novas perspectivas para a música, ao estabelecer o diálogo entre arte, ciência e meio ambiente.

Inventores de uma linguagem musical, como assinalou o poeta João de Jesus Paes Loureiro, que dirigia o Instituto de Artes do Pará (IAP), em 2003, quando Albery e Thiago iniciaram a sistematização de seus estudos com uma bolsa de pesquisa da instituição, os músicos foram distinguidos no ano passado com o diploma da Academia Paraense de Ciências, cujo patrono, o engenheiro civil e doutor em Física, José Maria Filardo Bassalo, observou que a Música Transmórfica revela resultados ainda mais singulares e surpreendentes quando lança mão de conceitos da Física – comprimento de onda, frequência e velocidade do som – e da matemática - geometria euclidiana -, para demonstrar uma intuição da humanidade: sim, é possível extrair música de uma grande diversidade de circunstâncias. 'Isso é vanguarda, é uma grande sacada que acredito que indique novos rumos para a educação musical', avaliou o cientista.

Música pode detonar célula cancerígena

Hoje, por exemplo, Albery está em Paraty, no Rio de Janeiro, onde faz uma apresentação durante o Simpósio de Criatividade, Interatividade e Difusão em Ciências e se avista, em seguida, com a Biofísica Márcia Capella, cuja equipe do Programa de Oncobiologia da UFRJ revelou, em março passado, que o 'pam-pam-pam-pam' da 5ª sinfonia de Beethoven mata células tumorais. Eles constataram que após meia hora de exposição à abertura da 5ª Sinfonia, uma em cada cinco células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, morreu.

Albery explica que o processo transmórfico – neologismo criado por Thiago, que significa através e além da forma - gera muitas outras escolas, entre as quais a música das geometrias da natureza, as melodias e harmonias medicinais a partir de ressonâncias, cujos mapeamentos de frequência os dois músicos têm estudado exaustivamente. 'Falta experimentar isso em laboratório, porque ela trabalha com a ressonância de células, de vírus, bacilos', explica ele, mergulhado na busca de uma música que possa curar as pessoas.

Quanto à experiência da UFRJ, Albery explica com o exemplo do estouro de uma taça de cristal pelo som. 'Você vibra na mesma frequência da taça; se aumentar a intensidade, a frequência levará as moléculas da taça ao limite máximo da capacidade vibratória até estourar', diz ele, ao afirmar a possibilidade de se reproduzir isso com os vírus ou células cancerígenas por exemplo. 'As células cancerígenas têm uma forma geométrica, um peso, uma carga que é possível mensurar para chegar a uma ressonância na frequência dela, intensa o suficiente para destruí-la', diz ele.

Canto de pássaro vira escala musical

Thiago Albuquerque, por sua vez, garante o suporte tecnológico à imaginação do pai, criando no computador instrumentos virtuais e um precioso banco de som com a voz dos animais da floresta, para composição, estruturação harmônica, contraponto, improvisação, tradução e adaptação. 'Tu podes traduzir qualquer música para a linguagem transmórfica', informa Albery, que tem versões 'uirapuruínas' para Yesterday, dos Beatles, o Hino do Pará e 'Vós Sois o Lírio Mimoso'. Como não há um instrumento acústico construído especificamente para o gênero Uirapuru – um dos próximos passos da pesquisa é este desenvolvimento -, os músicos transformam a voz do pássaro em escala e a sobrepõe às melodias. 'Não é só a voz, é a linguagem dele interpretando a canção', observa Albery, que relata situações curiosas de quando essas gravações são mostradas em público, como na audição de 'Vós Sois o Lírio Mimoso' para um grupo de religiosas. 'Ao final, uma freira quis saber como a gente conseguiu treinar o pássaro pra cantar o Lírio Mimoso', diverte-se.

As descobertas desconcertantes e originais dos músicos Albery e Thiago Albuquerque são conduzidas às expensas dos próprios artistas. Albery, por exemplo, está sem emprego e renda há muitos anos e não conta com apoio oficial algum para custear suas pesquisas.

Descobertas já estão agitando a europa


Albery e Thiago conseguiram editar pelo Centur 40 cópias do primeiro de uma série de sete livros iniciais que sintetizam as descobertas da Música Transmórfica.

Pelas mãos do violoncelista Diego Carneiro, que concluiu seu mestrado na Inglaterra com uma dissertação sobre a escola musical Uirapuru, um desses livros chegou a Nádia Kerecuk, especialista em História das Idéias e chefa do departamento de pesquisa sobre lingüística da Ucrânia no Brasil. Conferencista internacional renomada sobre a História das grandes descobertas e das artes, ela foi convidada pelo British Council para fazer um resumo do livro para ser publicado na Biblioteca Britânica. Concomitantemente, o Departamento de Estado Britânico para a Cultura enviou ao Pará quatro músicos e uma bailarina, no final de 2009, para conhecer a Música Transmórfica em um programa de residência. Vieram o paraense Diego Carneiro, o pianista Peter Cowdrey, a flautista Jennifer Raven e a violinista Liz Cowdrey, além da bailarina Helka Kaski. 'Eles passaram aqui 17 dias, fizeram master class, estudaram a música da floresta, a música geométrica, a música atômica, a música filotáxica', diz Albery.

A música transmórfica não copia, ela se apropria da natureza', define Albery, conhecido entre os franceses como 'Maestro Uirapuru'.

Qualquer coisa mensurável pode ser transformada em som

Albery diz que tudo o que é mensurável pode ser transformado em cultura musical. 'Um comprimento qualquer de 5.3125m. Se eu aplicar a fórmula da Física - F = à velocidade do Som (340 metros por segundo), dividido por esse comprimento, terei a freqüência de 64 hertz, que é a nota dó. O comprimento que eu tiver em linha reta, basta eu aplicar a fórmula para extrair a nota', diz ele. O mesmo pode ser feito com o tempo. 'Se tu me deres uma matriz com vários tempos, um minuto, duas horas, um ano, eu tiro o som, porque eu tenho o tempo, eu aplico na fórmula e acabou, eu tiro o som. Até no mundo atômico há padrão sonoro. São sonoridades implícitas. No caso do Uirapuru, são sonoridades explícitas, já se tornou escola musical, cultura musical, mas o mundo atômico também é transformável', diz ele.

O antropólogo, escritor e diretor de Som e Imagem da Sorbonne, Pascal Dibie, esteve em Belém para conhecer a Música Transmórfica e definiu: 'É uma nova linguagem. (...) Albery e Thiago Albuquerque (...) compreenderam que os sons emitidos pelo homem, que ele mesmo chama de ‘palavras’, foram inventados ao imitar seus irmãos os pássaros e seu temido primo, o jaguar. Tornando-se Uirapurus, Albery e Thiago entraram num diálogo autêntico com uma Amazônia tanto harmoniosa quanto viva e contemporânea', disse ele.

A música que pode curar
LINK http://www.orm.com.br/projetos/oliberal/interna/default.asp?codigo=535261&modulo=248

Artigo publicado no caderno Magazine do Jornal: O Liberal

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